Por Viviane Massi
Os eventos do Farma estão indo muito bem! Acabei de voltar do Future Trends, que reúne as grandes redes de farmácias associadas à Abrafarma. E quero contar o que vi e ouvi pelos corredores do Centro de Convenções do Distrito Anhembi, em SP.
Eu vi um robô humanoide entrar no palco principal e interagir com o público durante a abertura oficial do evento, dando claros sinais de que o tema IA dominaria os dois dias de Future Trends.
O que a IA tem feito e poderá fazer pelo varejo farmacêutico? Reflexões sobre essas e outras perguntas surgiram durantes os debates. “A IA vai ajudar as farmácias a serem mais produtivas”, disseram alguns especialistas.
Disso não temos mais dúvidas, mas e quanto às pessoas que trabalham nas farmácias? “Terão mais tempo para atender melhor, para ouvir o cliente, para se relacionar”, disseram outros. Assim esperamos que seja. Mas, na minha memória, ficará registrada a frase dita pelo robô: “Sigam sendo humanos!”, que é o melhor que podemos ser.
Eu também ouvi o chinês Alex Shengyun contar como está ocorrendo a revolução dos ecossistemas de inteligência artificial na China. E afirmar que “a IA na China é uma estratégia nacional não apenas para aumentar a competitividade, mas também para desafiar a dominância tecnológica dos EUA (a concorrência, nesse caso, faz bem).

Eu vi (e visitei) uma farmácia montada pela Metalfarma – a Farmatech – com 35 tecnologias que podem ser implantadas no PDV, entre elas, prontuário eletrônico, segurança IoT + IA, terminais avançados de consulta de preços, perfumaria inteligente com IA, etiquetas eletrônicas de tamanhos e formatos variados, cabine de telemedicina, totem de sinais vitais, self-checkout, inventário inteligente… e até um robô com atendimento autônomo e interativo com IA.
Eu ouvi o mexicano Héctor Valle, presidente executivo da Fundación Mexicana para la Salud A.C. contar que, no México, os médicos trabalham em parceria com as farmácias (podemos chamar isso de evolução ou fim do corporativismo?) e que as farmácias fazem mais atendimentos que o sistema público de saúde do México. Vou repetir caso não tenha ficado claro: no país de los hermanos, as farmácias são autorizadas a terem consultório médico para atendimento primário.
E, diante de uma plateia ainda mais surpresa, ouvimos Drauzio Varella afirmar com todas as letras, durante palestra sobre os desafios da saúde e o papel das farmácias, que elas devem ser integradas ao sistema brasileiro de saúde. “É um desperdício não integrar a farmácia no SUS”, disse o médico oncologista, cientista, escritor (e comunicador – esse crédito é por minha conta) que se tornou uma das maiores autoridades em saúde do país.
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Nós estamos envelhecendo “e mal”, segundo Drauzio, porque juntamente com a idade vêm as doenças crônicas, como hipertensão e diabetes, que precisam de controle. E controle esse que o SUS não consegue oferecer. A quem caberia esse papel? “Às farmácias!”, disse Drauzio, desde que os farmacêuticos sejam preparados para isso.
O Brasil tem mais de 30 milhões de pessoas com mais de 60 anos, ou seja, 15% da população. Em 2070, seremos 75 milhões. Segundo o IBGE, famílias com pessoas idosas vão mais à farmácia, têm uma cesta com mais produtos e gastam 15% a mais do que famílias sem idosos. Eu mesma já fiz conteúdo sobre o potencial da economia prateada. O que estou querendo dizer que é as farmácias têm todos os motivos para olhar com mais atenção para esse público.
Eu vi uma feira com estandes belíssimos, idealizados e projetados para impressionar, como Carmed e Nestlé. Pelos corredores, a pujança de um setor que movimenta bilhões de reais por ano estava refletida nas pessoas e nas novidades que cada fabricante levou para o evento.
Eu ouvi grandes redes de farmácias apresentarem seus ousados planos de expansão e crescimento, inclusive projetando faturar milhões de reais apenas com vacinas. Impressiona saber a clareza que possuem sobre suas estratégias, o que justifica, em parte, dominarem 50% do mercado. Também vi o quão entrosadas essas redes estão com grandes marcas do segmento, que direcionam pequenas fortunas para as áreas de trade.
E, no apagar das luzes, peguei o caminho de volta para casa me perguntando qual futuro terá o varejo independente. Tudo o que vi e ouvi está muito distante das mais de 50 mil farmácias que compõem o segmento de quem não é grande rede e não tem bandeira (associativismo, franquia e licenciamento). Trata-se de um grupo de empresários e empresárias que faz um caminho solitário, tortuoso e pouco rentável.
O Future Trends é incrível (e parabéns para a Abrafarma), mas ele traz à tona o inegável fato de que o nosso varejo farmacêutico é feito de alguns abismos. Nesse universo heterogêneo e multifacetado, quem vai conseguir prosperar?