Revista da Farmácia

O novo desafio das farmácias: competir conectando tecnologia e gente

Foto: Divulgação

O varejo farmacêutico brasileiro vive uma transformação inevitável. Enquanto marketplaces ampliam sua presença na venda de medicamentos e supermercados aguardam autorização para entrar no setor, as redes tradicionais enfrentam um desafio decisivo: como continuar relevantes em um mercado onde o digital já é parte da rotina do consumidor?

Espaço publicitário

Nos últimos anos, o e-commerce e os atendimentos por canais digitais cresceram de forma significativa — mas a integração entre o mundo físico e online ainda está em construção.

“Não se trata de temer o digital, e sim de aprender a conviver com ele. A farmácia que vai se destacar é aquela que entende como unir conveniência e vínculo, tecnologia e confiança”, explica Lucas Rosa, head de Marketing do Grupo AMR.

Recentemente, uma grande rede do setor anunciou investimentos robustos em logística e centros de distribuição, reforçando que o caminho não é competir com os marketplaces, mas estar preparada para atender em todas as frentes. O digital é inevitável — mas é o relacionamento que fideliza.

Pesquisas da IFEPEC/Unicamp mostram que 26,9% dos consumidores fazem compras não presenciais em farmácias e 88% utilizam WhatsApp ou telefone como canal de contato. Apesar de números modestos comparados a outros segmentos do varejo, eles mostram algo importante: o setor ainda se apoia muito na experiência pessoal. A farmácia continua sendo um espaço de conversa, acolhimento e confiança.

“Esse consumidor não separa mais o físico do online. Ele compara preços no celular, faz pedidos por WhatsApp e escolhe retirar na farmácia da esquina — onde conhece o balconista e confia no farmacêutico”, acrescenta Lucas.

A força de quem ainda vai à farmácia

Para Alessandra Souza, gerente de Educação Corporativa do Grupo AMR, entender quem está do outro lado do balcão é fundamental.

“O público tradicional — idosos, mães e pessoas doentes — ainda é muito presente, mas hoje divide espaço com quem busca conveniência, beleza e autocuidado”, afirma.

Com o novo mix de produtos e serviços, a farmácia deixou de ser apenas um ponto de venda e passou a ser um espaço de cuidado e convivência.

Por isso, a presença física continua relevante: muitos clientes querem — e precisam — do atendimento humano.

“Em muitos casos, o cliente não quer só o produto. Ele quer alguém que o escute e o oriente com responsabilidade”, completa Alessandra.

O jeito de atender que diferencia

Segundo a AMR, o diferencial competitivo está na coerência entre canais e no preparo das equipes para ouvir e interpretar cada cliente.

O grupo utiliza um modelo de personalização padronizada, com mentoria contínua que orienta cada loja segundo seu porte e maturidade.

“Nem toda farmácia precisa da mesma estrutura. Um franqueado que fatura dois milhões por mês precisa de um tipo de investimento; outro, que fatura cinquenta mil, pode crescer até 15% apenas aprimorando o atendimento e a comunicação”, explica Alessandra.

Esse acompanhamento acontece de forma próxima, com mentores que conhecem o negócio e as pessoas por trás dele. “Tem mentor que sabe quando o dono vai casar ou quando o filho nasceu. Isso é relacionamento de verdade. Cuidar de quem cuida é o que move o nosso trabalho”, comenta.

Dicas práticas para um bom atendimento híbrido

Agilidade com empatia: No digital, quem responde rápido conquista a atenção. Quem responde com gentileza, conquista fidelidade. O atendimento automatizado deve ser ponte — não barreira — entre o cliente e o humano.

    Antecipe necessidades: Use histórico de compra para lembrar o cliente da recompra. Essa atenção demonstra cuidado e evita perder o consumidor para o concorrente mais ágil.

      Atendimento orientado: O foco não deve ser “venda casada”, mas orientação ética: explicar opções e, quando necessário, encaminhar ao farmacêutico. O cliente valoriza quem o ajuda a decidir com segurança.

        Leia os indicadores certos: Além do faturamento, acompanhe fluxo, cupons e itens por venda. Queda de cupons indica menos visitas; menos itens, perda de engajamento.

          Adapte tecnologia ao contexto: Em lojas pequenas, processos simples geram ganhos rápidos. Em grandes, CRM e IA ajudam a prever demanda. O essencial é que a tecnologia reforce, e não substitua, o relacionamento.

            Crie espaços de convivência: Idosos, mães e clientes fiéis valorizam o contato. Um ambiente acolhedor é o diferencial que o online não entrega. O bom atendimento continua sendo a tecnologia mais poderosa.

              “Respeitamos quem o franqueado é e o ajudamos a chegar aonde deseja. Não entregamos um trilho, e sim uma carta marítima — mostramos as rotas e ajudamos a escolher o caminho”, resume Alessandra.

              Um varejo que escuta e traduz o seu tempo

              O setor farmacêutico segue em expansão — segundo a Linx, cresceu 12,6% em 2024 e deve avançar mais 9,3% em 2025. Mas o crescimento real depende de algo que não cabe em algoritmo: confiança.

              “Tecnologia é meio, não fim”, reforça Lucas Rosa. “A inteligência artificial ajuda a prever demanda e ajustar estoques, mas o que gera resultado é a empatia”.

              Leia também: A transfiguração do varejo farmacêutico pela IA

              Enquanto o mercado se digitaliza, a farmácia física precisa reafirmar seu valor: ser o ponto de conexão entre tecnologia e toque humano.

              No fim, a disputa no varejo farmacêutico não é apenas por preço ou entrega rápida. É por presença — aquela que se sente do outro lado do balcão.

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