Revista da Farmácia

Quase um em cada quatro usuários de antidepressivos também utiliza medicamentos para doenças crônicas

Ricardo Moraes, diretor médico da Funcional (Foto: Sarah Daltri)

O tratamento da saúde mental não pode mais ser visto de forma isolada. É o que revela um levantamento inédito realizado pela Funcional, especialista em programas de acesso e adesão em saúde no Brasil, a partir da base de dados do Benefício Farmácia. De acordo com a análise, 22,8% dos usuários de antidepressivos também utilizam medicamentos para condições crônicas, evidenciando a coexistência entre tratamentos para saúde mental e doenças crônicas entre os usuários analisados. Além disso, 35,7% desse mesmo grupo fazem uso de medicamentos de duas ou mais classes terapêuticas diferentes.

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Os resultados mostram que uma parcela significativa das pessoas em tratamento com antidepressivos também convive com outras condições de saúde, reforçando a necessidade de uma abordagem integrada do cuidado e de estratégias que favoreçam a adesão terapêutica.

Para o médico Ricardo Moraes, diretor médico da Funcional, os dados mostram que saúde mental e saúde física precisam ser tratadas de forma conjunta.

“Os resultados mostram que saúde mental e doenças crônicas frequentemente caminham juntas. Quando o paciente precisa administrar diferentes tratamentos, garantir a adesão terapêutica torna-se um dos principais desafios para alcançar melhores desfechos clínicos. Por isso, integrar o cuidado é essencial para melhorar a qualidade de vida e reduzir impactos para pacientes, empresas e para o sistema de saúde.”

O recorte da Funcional ganha ainda mais relevância quando analisado à luz das evidências científicas mais recentes. Um estudo publicado na revista Nature Medicine mostrou que pacientes com depressão apresentam 76% maior probabilidade de não aderir ao tratamento de doenças crônicas. A pesquisa também concluiu que a maior parte do impacto econômico da depressão não decorre dos custos assistenciais, mas da redução da participação no mercado de trabalho e da produtividade, efeito parcialmente explicado pela menor adesão aos tratamentos.

Esse cenário também ajuda a explicar o aumento dos afastamentos relacionados à saúde mental, impulsionado pela crescente prevalência de casos de depressão e ansiedade no Brasil, conforme apontam os dados do inquérito Covitel 2023, disponíveis no Observatório da Saúde Pública.

O reflexo desse cenário impacta diretamente a sustentabilidade das empresas e a economia. Em escala global, os transtornos mentais representam um custo estimado de US$ 1 trilhão por ano em perda de produtividade, segundo o relatório WHO Guidelines on Mental Health at Work, da Organização Mundial da Saúde.

O levantamento da Funcional ainda mostra que, entre os usuários de antidepressivos, 14,0% utilizam medicamentos hipoglicemiantes, 10,4% fazem uso de anti-hipertensivos e 9,1% utilizam medicamentos para o tratamento do colesterol elevado. Os percentuais não são excludentes, uma vez que um mesmo paciente pode utilizar combinações dessas classes terapêuticas em razão das comorbidades associadas.

Leia também: Medicamentos para hipertensão lideram a jornada crônica e representam 36,1% dos tratamentos contínuos

“A relação entre mente e corpo é profunda e exige uma abordagem mais ampla, que considere os diferentes fatores que influenciam o bem-estar das pessoas. Programas que favorecem a adesão terapêutica podem gerar benefícios que vão além da continuidade do tratamento, contribuindo para preservar a capacidade funcional, melhorar a qualidade de vida dos pacientes e aumentar a sustentabilidade do sistema de saúde. O cuidado integrado deixou de ser uma tendência para se tornar uma necessidade”, complementa Ricardo.

Diante desse cenário, é fundamental adotar uma abordagem integrada de saúde, com foco real na melhoria da qualidade de vida.

“Cada dado representa pessoas que enfrentam sobrecarga física e mental. O cuidado integrado vai além do simples acompanhamento de indicadores: significa acolher as pessoas e promover o bem-estar de quem mais precisa”, finaliza o médico.

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