Farmácia Popular Digital: ameaça ou oportunidade para as farmácias?

Projeto em tramitação no Congresso muda a lógica do programa e exige ajustes em processos, tecnologia e atendimento no varejo farmacêutico.
Farmácia Popular Digital: ameaça ou oportunidade para as farmácias?
Foto: Divulgação
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O Projeto de Lei nº 3.977/25, conhecido como Farmácia Popular Digital, propõe digitalizar o acesso aos medicamentos do SUS, integrando prescrição, autorização e dispensação ao aplicativo Meu SUS Digital e priorizando, no futuro, a entrega domiciliar para idosos e pessoas com deficiência. A proposta ainda precisa passar por outras comissões e ser aprovada na Câmara dos Deputados e no Senado antes de se tornar lei. Ou seja, muitos detalhes operacionais ainda estão em aberto. Ainda assim, caso o modelo seja aprovado nos termos atuais, o impacto para as farmácias tende a ser significativo.

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Mais do que uma atualização tecnológica, o projeto aponta para uma mudança na forma como as farmácias se relacionam com o paciente. E é justamente esse impacto prático que chama a atenção do varejo farmacêutico.

Pelo modelo em discussão, a receita passa a ser eletrônica e registrada na Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS). O paciente utiliza o aplicativo oficial para gerar um token ou QR Code que autoriza a retirada do medicamento em uma farmácia credenciada ou, conforme regras futuras, a entrega domiciliar. A retirada presencial continua prevista, mas deixa de ser o único caminho. Na prática, isso tende a reduzir o fluxo presencial motivado exclusivamente pela retirada de medicamentos do Farmácia Popular — um movimento que pode impactar especialmente as farmácias que dependem desse tráfego para manter o relacionamento com o paciente e gerar vendas complementares.

Para o Grupo AMR Saúde — que reúne as redes Drogaria Americana, Farma Justa e Poupe Já —, o avanço do projeto é essencial e acompanha o envelhecimento acelerado da população brasileira. Por outro lado, exige que as farmácias passem a olhar o tema de forma estratégica desde já.

“A proposta do Farmácia Popular Digital não muda apenas a tecnologia. Ela muda a lógica do balcão e a forma como o paciente se relaciona com a farmácia. Parte das interações que acontecem naturalmente com os clientes pode diminuir. Por isso, mesmo antes de virar lei, já é um sinal claro de que o setor precisa se preparar”, afirma Aline Alcântara, farmacêutica clínica e consultora do Grupo AMR.

Segundo Aline, o novo modelo pode aumentar a vulnerabilidade de pequenas e médias farmácias se não houver adaptação. Elas tendem a ser mais impactadas quando não têm acesso à tecnologia e à integração digital, não conseguem investir em ajustes operacionais e dependem fortemente do fluxo do Farmácia Popular para o faturamento. Por outro lado, o cenário também abre oportunidades concretas.

“Existe um espaço enorme para as farmácias que conseguirem oferecer atendimento humano diferenciado, serviços farmacêuticos, acompanhamento clínico e relacionamento digital com o paciente. Quem continuar operando apenas como ponto de retirada pode sentir mais. Quem se posicionar como estabelecimento de saúde tende a sair fortalecido”, destaca.

Como as farmácias podem se preparar desde já

Na avaliação da AMR, o momento de se preparar é agora. A adaptação para esse novo cenário passa por um conjunto de ações que vão além da tecnologia e envolvem pessoas, processos e estratégia de negócio.

Capacitação da equipe para o novo modelo digital

A digitalização do Farmácia Popular altera rotinas tradicionais do balcão, como a conferência de documentos físicos e a validação manual de receitas. Por isso, é fundamental preparar as equipes para operar autorizações digitais via QR Code ou token, compreender os fluxos de prescrições eletrônicas e orientar os pacientes nos canais digitais.

“Treinar a equipe não é apenas ensinar a usar um sistema. É preparar o farmacêutico para manter o vínculo com o paciente mesmo com menos contato presencial”, destaca Aline.

Atualização tecnológica e integração de sistemas

As farmácias precisarão estar aptas a integrar seus sistemas às plataformas digitais do SUS, garantindo validação eletrônica, registro adequado das dispensações, rastreabilidade das operações e conformidade com as exigências de segurança e proteção de dados.

“Investir em tecnologia desde agora não é custo. É ganhar eficiência e reduzir riscos quando o modelo entrar em vigor”, explica.

Revisão de processos e rotinas operacionais

Com a possibilidade de entrega domiciliar e a redução da circulação física no balcão, será necessário revisar processos internos. Isso inclui novos fluxos de conferência digital, rotinas de controle, gestão de dados, rastreabilidade e, em alguns casos, logística de entrega.

“Sem organização, o risco é criar gargalos, erros operacionais e perda de controle da jornada do paciente”, alerta Aline.

Fortalecimento dos serviços farmacêuticos e clínicos

À medida que a dispensação tende a se tornar mais automatizada, cresce a importância de serviços de valor agregado, como orientação clínica, acompanhamento farmacoterapêutico, educação em saúde, teleatendimento e atendimentos domiciliares.

“O papel do farmacêutico fica ainda mais estratégico. Menos foco na entrega e mais foco no cuidado”, resume a farmacêutica.

Fidelização e relacionamento digital

Para evitar a perda de vínculo com pacientes que passam a acessar o programa de forma remota, estratégias de comunicação ativa, alertas de tratamento, acompanhamento contínuo e programas de fidelização tornam-se fundamentais.

Leia também: O novo desafio das farmácias: competir conectando tecnologia e gente

A recomendação é acompanhar de perto a tramitação do projeto e suas futuras regulamentações. Como o modelo final ainda não está definido, o caminho mais seguro é investir de forma gradual e estratégica, priorizando capacitação, organização e leitura de cenário.

“O Farmácia Popular Digital ainda está em construção, mas a transformação já começou. Quem se antecipa, se adapta melhor”, conclui Aline.

Foto de Revista da Farmácia

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