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Como farmácias em Portugal lidaram com a crise da Covid-19

“Estamos tendo prudência para que não haja ninguém contaminado dentro da farmácia, porque se isso ocorrer teremos de encerrar as atividades, o que é dramático do ponto de vista financeiro.”

Em Portugal, a reabertura gradual do comércio teve início há cerca de uma semana. Ao contrário do Brasil, a adesão ao isolamento social em terras portuguesas foi alta, sem necessidade de se chegar ao temido lockdown, que algumas cidades brasileiras já adotaram. A política de combate à pandemia de Covid-19 no país é inclusive uma das mais elogiadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

O processo de reabertura se dará em três fases, e os portugueses são obrigados a usar máscaras dentro e fora dos ambientes. Lá, o número de contágio vem caindo a cada dia. Até o fechamento desta reportagem, eram 27.913 infectados, 3.013 recuperados e 1.163 mortes, números bem menores que os da vizinha Espanha.

A Revista da Farmácia conversou com a farmacêutica portuguesa Isaura Martinho, proprietária da Farmácia Marvila e membro do Conselho Nacional da Associação Nacional das Farmácias (ANF). Ela conta, nesta entrevista, como as farmácias portuguesas lidaram e ainda estão lidando com a crise de Covid-19.

Revista da Farmácia: Neste momento, em que situação se encontram as farmácias portuguesas?

Isaura Martinho: Já reabrimos todas as farmácias, porque algumas estavam atendendo pelo postigo – pequena porta. Os serviços como medição de parâmetros bioquímicos e consultas ainda não estão sendo feitos. Talvez retornem em junho, dependendo da situação que irá se desenrolar com a reabertura gradual. Como o país já está saindo do confinamento, nada nos garante que possamos voltar a ter mais casos de contaminação. Estamos tendo prudência para que não haja, dentro da farmácia, ninguém contaminado, porque, se isso acontecer, temos que encerrar as atividades, o que é dramático do ponto de vista financeiro. Até agora tivemos 13 farmácias que foram obrigadas a encerrar por contágio de seus profissionais, mas a última reabriu ontem (11/05/20).

RF: De que forma as farmácias portuguesas atuaram no combate à pandemia do novo coronavírus?

Isaura: As farmácias encontraram estratégias para minimizar os riscos de exposição da população, fazendo entregas em casa, divulgando informação sobre a doença e apoiando os mais vulneráveis. Os estabelecimentos farmacêuticos mantiveram-se abertos durante toda a crise, fazendo uso das mais variadas estratégias que lhes permitiram continuar a servir o público e a salvaguardar a saúde de suas equipes. Em algumas áreas de Portugal, o governo autorizou o atendimento noturno. Outras medidas foram decretar um número máximo de pessoas dentro dos estabelecimentos, colocar marcadores de distanciamento seguro entre as pessoas e revestir os balcões com barreiras acrílicas.

RF: Farmácias de Portugal podem vender e realizar testes para coronavírus? O que determina a Infarmed?

Isaura: Até o momento, as farmácias portuguesas não vendem nem realizam testes, inclusive não podem ainda realizar serviços farmacêuticos como aferição de parâmetros bioquímicos.

Leia também: Saiba como notificar problemas em testes rápidos de covid-19

RF: Houve redução no faturamento das farmácias?

Isaura: Em relação às vendas, registrou-se, nos dias que antecederam e nos primeiros após a declaração de pandemia, uma corrida às farmácias para a compra de medicamentos e produtos de saúde relacionados à prevenção da Covid-19. Depois disso, com a declaração do Estado de Emergência Nacional e o recolhimento recomendado – em dadas alturas obrigatório – em todo o país, e o consequente esvaziamento das ruas, as vendas baixaram significativamente. Há categorias de produtos que deixaram praticamente de se vender, como os dermocosméticos, por exemplo. Preparamo-nos para sofrer um impacto maior nos próximos meses. De modo geral, o movimento baixou muito, e as que mais sofreram economicamente pela quase total ausência de pessoas a circular são as farmácias que estão nos centros comerciais e zonas turísticas.

RF: O sistema de delivery aumentou?

Isaura: Sim e essa foi inclusive uma das principais recomendações que fizemos aos nossos doentes, para que se mantivessem em casa. Para tal, as farmácias criaram uma linha gratuita nacional para reserva de medicamentos (Linha 1400) e estabeleceram protocolos com diversas entidades para a entrega em domicílio, como é o exemplo da parceria feita com os Correios de Portugal. Todo o país ainda tem conjugado esforços no sentido de proteger as pessoas de maior risco de contágio, afastando-as de eventuais focos. Os doentes crônicos que necessitam de medicação hospitalar, por exemplo, deixaram de ter de se deslocar aos hospitais, por vezes a horas de distância do local onde vivem, para poder passar a receber a sua medicação hospitalar nas farmácias perto da sua casa.   

RF: Faltam produtos nas farmácias devido à pandemia? Quais produtos?

Isaura: Sim, tem faltado produtos ligados à prevenção contra a doença, não somente para venda, mas também equipamentos de proteção para os próprios profissionais, uma dificuldade que é transversal e mundial. Nessas alturas, surgem sempre oportunismos, e as farmácias, como outros setores, foram alvo de múltiplos movimentos de preços especulativos, tanto que, por pressão nossa, o Estado se viu obrigado a intervir, regulando os preços e as margens desses produtos.

RF: A Associação Nacional de Farmácias está apoiando e orientando as farmácias sobre a Covid-19?

Isaura: A ANF tem sido bastante ativa. Ainda antes de ter sido decretada a pandemia, foi constituído um gabinete de crise, que já havia preparado um guia para a realização de planos de contingência por cada farmácia, os quais são periodicamente atualizados sempre que a evolução da informação e do panorama nacional o justificam. Tem também sido emitida informação diária às farmácias nos mais variados quadrantes: científico, profissional, jurídico. Foram realizadas várias formações, presenciais antes e a distância depois de decretada a pandemia, sobre o tema Covid-19. Também foi criado um programa de apoio às farmácias para enfrentar a crise.

RF: Como farmacêutica e empresária, qual sua avaliação sobre a pandemia? Você acha que as farmácias poderiam fazer algo que não estão fazendo?

Isaura: A pandemia é uma tragédia mundial para a qual ninguém estava preparado, nem do ponto de vista econômico nem de saúde. Resta-nos aprender e trabalhar para que este momento seja menos cruel para a população.  As farmácias e os seus profissionais estiveram e ainda estão na linha da frente e a dar o seu melhor.

RF: Quais as principais demandas para a sua farmácia durante a pandemia de Covid-19?

Isaura: A minha farmácia atende principalmente a população idosa. Agora está tudo mais calmo, mas havia dias que vinham muitas vezes à farmácia para tirar dúvidas.

RF: Com está sendo a retomada gradual das atividades em geral?

Isaura: De modo geral, as medidas de isolamento e as regras de distanciamento foram bem acatadas pela população, que compreendeu os riscos colocados pela Covid-19. Isso, aliás, prova-se pelos bons resultados alcançados no controle da disseminação da doença e que permitem um vislumbre, embora muito cauteloso, de afrouxamento das medidas.

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