Empresa brasileira Brascann avança em mercado recém-criado e mira expansão da cannabis manipulada no país

Fornecimento de CBD para farmácias de manipulação já responde por 32% da receita da empresa, que aposta em um novo modelo.
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Fabricio Pamplona é sócio-diretor da Brascann (Foto: Divulgação)
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A Brascann Farmacêutica, distribuidora brasileira que atua com produtos à base de cannabis medicinal, desponta como protagonista de um dos mercados mais promissores abertos recentemente no setor: o fornecimento de insumos farmacêuticos para farmácias de manipulação.

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Com a entrada em vigor da RDC nº 1.015/2026, da Anvisa, publicada em fevereiro e vigente desde maio, o setor inicia uma nova fase. Pela primeira vez, passa a contar com um ambiente regulatório favorável ao uso de canabidiol (CBD) isolado como Insumo Farmacêutico Ativo (IFA) no mercado magistral, formado pelas farmácias de manipulação, desde que o insumo apresente pureza mínima de 98%.

Em poucos meses de operação, a nova unidade de negócios já responde por 32% da receita da empresa e mira um mercado que pode ampliar o acesso aos tratamentos à base de canabidiol, reduzir custos para os pacientes e transformar a forma como a cannabis medicinal é prescrita, formulada e dispensada no país.

Mais do que uma mudança regulatória, a medida inaugura uma nova etapa da cadeia produtiva da cannabis medicinal no Brasil. Até recentemente, o mercado era concentrado na importação de produtos pelos pacientes e na comercialização de produtos acabados autorizados pela Anvisa.

De acordo com Fabricio Pamplona, cientista com atuação internacional na área de canabinoides e sócio-diretor da Brascann, ao reduzir a dependência de produtos acabados importados, o mercado passa a ter condições de construir uma cadeia mais eficiente e competitiva. “Isso cria uma oportunidade concreta para reduzir o preço final dos tratamentos e ampliar o acesso à cannabis medicinal no Brasil”, explica.

Segundo o executivo, a expectativa é de que a entrada dos insumos farmacêuticos de cannabis no setor magistral represente uma mudança relevante no acesso aos tratamentos. Dependendo da formulação, a redução de custos para os pacientes pode chegar a 50% em comparação aos produtos atualmente disponíveis nas drogarias brasileiras.

A exigência de pureza mínima de 98% para o CBD utilizado como IFA é um dos pontos centrais dessa nova etapa. Na prática, esse padrão permite maior controle da formulação, precisão na dosagem prescrita e potencial aumento da segurança e da reprodutibilidade das formulações.

“Somos os primeiros a disponibilizar um insumo farmacêutico com grau de pureza em conformidade com a regulamentação da Anvisa. A empresa trabalha atualmente com CBD que supera esse requisito”, destaca Pamplona. O porta-voz complementa que, nesse grau de pureza, o CBD se apresenta como um pó branco cristalino, sem cheiro e sem sabor, características que ampliam as possibilidades de desenvolvimento de formulações magistrais personalizadas.

Para médicos e pacientes, a mudança abre espaço para a personalização dos tratamentos, algo que até então não fazia parte da realidade do mercado brasileiro de cannabis medicinal. Com o CBD isolado disponível como insumo farmacêutico, passa a ser possível ajustar dose, forma farmacêutica, veículo e titulação conforme a resposta individual de cada paciente, em vez de depender exclusivamente de produtos prontos.

“Isso é histórico. É um passo importante em um espaço que já vinha sendo disputado desde a publicação da RDC nº 327, em 2019. Até hoje, o mercado era dominado pela indústria. Com a entrada do CBD no setor magistral, a cannabis deixa de ser apenas uma marca na prateleira e se transforma em um universo de soluções possíveis, centradas nas necessidades dos pacientes. A farmácia de manipulação transforma prescrições médicas em soluções sob medida. Produtos industrializados podem funcionar muito bem em determinadas situações, mas nem sempre conseguem oferecer o nível de personalização necessário para todos os casos”, afirma Pamplona.

“A grande transformação não está apenas no produto, mas na infraestrutura que tornará esse mercado confiável. Agora, ele passa a integrar uma cadeia de insumos, com controle de qualidade, educação médica, treinamento farmacêutico e abastecimento das farmácias autorizadas”, explica.

“A cannabis entra em uma nova fase, menos barulhenta, mais técnica e, possivelmente, mais transformadora pela escala que vai atingir. Durante anos, o setor discutiu autorização de produtos e regulamentação. Agora, começamos a discutir personalização, escala e ampliação do acesso”, completa.

A mudança também amplia significativamente as possibilidades clínicas. Segundo o executivo, as principais indicações do CBD manipulado incluem ansiedade, estresse, insônia e outros distúrbios do sono, além de dor crônica, dor neuropática, epilepsia refratária e condições dermatológicas, como dermatite, acne e psoríase. A partir de agora, as formulações também podem ser preparadas em diferentes apresentações, incluindo soluções orais, cápsulas, sprays sublinguais e produtos de uso tópico, como cremes, géis e pomadas.

Mercado

A medida soma-se a uma série de avanços regulatórios recentes, sendo 2026 considerado um ano decisivo para a consolidação da indústria de cannabis medicinal no Brasil. Em poucos meses, quatro mudanças regulatórias passaram a estruturar esse mercado: a criação de regras para o desenvolvimento da cadeia produtiva nacional; a autorização para o fornecimento de CBD às farmácias de manipulação; a simplificação das regras de prescrição para determinados produtos; e a entrada em vigor desse novo ambiente regulatório, que já começa a movimentar toda a cadeia farmacêutica.

O avanço ocorre em um momento de forte crescimento da cannabis medicinal no Brasil. Dados da Kaya Mind, empresa especializada em inteligência de mercado para cannabis, apontam que o setor movimentou aproximadamente R$ 970 milhões em 2025, valor 14% superior ao registrado no ano anterior. A expectativa é que o mercado ultrapasse a marca de R$ 1 bilhão em 2026 e alcance R$ 1,2 bilhão até 2027.

Hoje, o mercado brasileiro atende cerca de 870 mil pessoas, mas as projeções indicam potencial para alcançar 6,9 milhões de consumidores no longo prazo, reforçando a percepção de que a cannabis medicinal ainda está nos estágios iniciais de desenvolvimento no Brasil.

Quem está por trás

A Brascann é uma distribuidora farmacêutica especializada em produtos à base de cannabis medicinal. Em seu portfólio, também estão a linha americana Cannaviva, voltada a produtos à base de CBD, THC, CBG e CBN, e a linha indiana da Bombay Hemp Company, composta por extratos canábicos ayurvédicos produzidos tradicionalmente nos Himalaias.

No segmento de insumos farmacêuticos, a empresa trabalha atualmente com fornecedores internacionais de grau farmacêutico.

Atualmente, fornece CBD isolado para 23 farmácias de manipulação distribuídas em quatro estados brasileiros. A expectativa da empresa é ampliar essa base para cerca de 60 farmácias até o fim de 2026, além de associações de pacientes. Lançada em março deste ano, a operação voltada ao mercado magistral já responde, em junho, por 32% da receita acumulada da companhia e deve encerrar o ano com aproximadamente R$ 600 mil em faturamento.

Considerando todas as unidades de negócio, a Brascann projeta ultrapassar a marca de R$ 1 milhão em faturamento consolidado ainda no terceiro trimestre.

“Isso demonstra a rápida demanda e adesão do mercado ao novo ambiente regulatório criado pela Anvisa. Estamos entre os pioneiros na estruturação desse novo segmento”, destaca Pamplona.

As farmácias de manipulação já representam o principal canal de atuação da unidade de insumos, respondendo por 55% da receita. As associações voltadas ao acesso à cannabis medicinal concentram outros 39%, enquanto as farmácias veterinárias representam 6% do total.

A empresa é liderada por Fabricio Pamplona e Alex Silveira. Pamplona é farmacêutico, doutor em Farmacologia e empreendedor com atuação internacional na área de canabinoides. Participou de iniciativas pioneiras para o desenvolvimento da cannabis no Brasil, sobretudo da primeira startup do país no segmento, além de desempenhar papel estratégico na construção do marco regulatório brasileiro em colaboração com a Anvisa.

Alex Silveira é economista e fundador da Vital Green, grupo de investimentos com foco em saúde, tecnologia e inovação. Ao lado de Pamplona, participa da estruturação da empresa em um momento em que a cannabis medicinal avança para uma nova etapa no Brasil, mais técnica, regulada e integrada à cadeia farmacêutica.

Marcos que abriram o mercado magistral de cannabis no Brasil

2019 | RDC 327/2019
Anvisa cria a categoria de produtos de cannabis para fins medicinais e autoriza sua comercialização em farmácias e drogarias mediante prescrição médica.

2022 | RDC 660/2022
Regulamenta a importação excepcional de produtos de cannabis por pessoa física, ampliando o acesso de pacientes a tratamentos disponíveis no exterior.

Fevereiro de 2026 | RDC 1.013/2026
Anvisa publica as regras para o desenvolvimento da cadeia produtiva da cannabis medicinal no Brasil, incluindo critérios para cultivo, produção, rastreabilidade e controle.

Fevereiro de 2026 | RDC 1.015/2026
Atualiza o marco regulatório da cannabis medicinal e permite o uso de CBD como Insumo Farmacêutico Ativo (IFA) para o setor magistral, desde que tenha pureza mínima de 98%, abrindo caminho para a manipulação de formulações à base de canabidiol em farmácias autorizadas.

Maio de 2026 | Simplificação das regras de prescrição
A Anvisa passa a permitir que formulações com baixo teor de THC sejam prescritas por meio da Receita de Controle Especial (RCE), substituindo, em determinados casos, a Notificação de Receita A (receituário amarelo). A medida reduz etapas burocráticas para médicos, pacientes e farmácias e facilita o acesso aos tratamentos.

Maio de 2026 | Entrada em vigor das novas regras
As mudanças regulatórias entram em vigor e o mercado passa a contar com um ambiente regulado para o fornecimento de insumos farmacêuticos de cannabis destinados a farmácias de manipulação, inaugurando uma nova etapa da cadeia produtiva nacional.

Foto de Revista da Farmácia

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