O avanço no uso de medicamentos à base de GLP-1 no Brasil está reconfigurando não apenas o setor de alimentos, mas também a cesta de beleza e cuidados pessoais. De acordo com levantamento da Scanntech, empresa de inteligência de dados para o varejo, o novo comportamento do consumidor impulsiona a busca por produtos especializados para cuidados com a pele e os cabelos, com destaque para o crescimento de 29,4% nas vendas, em unidades, de xampus medicamentosos nos últimos doze meses.

O contraste com os itens de rotina básica reforça um movimento em que a especialização ganha força no ponto de venda, segundo Priscila Ariani, diretora de Marketing da Scanntech. “A transformação no setor de cosméticos caminha lado a lado com a popularização dos tratamentos para emagrecimento. Por isso, nós avaliamos que a expansão do uso desses medicamentos está associada ao surgimento de novas necessidades de cuidado com a pele e os cabelos, justificando o dinamismo de categorias ligadas a tratamentos e ativos funcionais”, diz Priscila.
Um dos possíveis efeitos colaterais das canetas emagrecedoras é a queda de cabelo, e o país acumula alta de 244% no uso do GLP-1 no primeiro semestre de 2026, ante o mesmo período de 2025, conforme levantamento da Scanntech. Os dados da empresa, coletados a partir dos tíquetes de vendas no mercado farmacêutico, mostram uma aceleração no segundo trimestre, período marcado pela queda da patente e pela chegada de novos medicamentos mais baratos ao mercado. Entre o segundo e o primeiro trimestre de 2026, o uso do medicamento cresceu 35%.
Em paralelo, o mercado informal já responde por 53,8% (cerca de 54%) das doses de GLP-1 consumidas no Brasil, segundo estimativa da Scanntech, feita a partir de uma análise sobre o aumento das vendas de seringas para insulina no período, utilizadas para a aplicação do medicamento no mercado informal.
Enquanto o xampu medicamentoso dispara 29,4% em unidades vendidas nas farmácias, produtos de manutenção básica enfrentam retração, com quedas de 4,2% para xampus comuns e de 10,3% para condicionadores. Além do avanço do GLP-1, o preço médio do xampu medicamentoso caiu 8,9% no mesmo período, indicando que a maior procura também pode estar relacionada à redução do preço do produto.
Dermocosméticos para pele também apresentam alta em vendas
O foco na especialização e em ativos de alta performance também aparece nos produtos para pele, tanto do rosto quanto do corpo. Os números da Scanntech apontam que os dermocosméticos (produtos com ativos terapêuticos que tratam problemas em camadas mais profundas) registraram crescimento de 8,2% em faturamento e de 5,8% em unidades também nos últimos doze meses. Os destaques ficaram para os tratamentos corporais (+8,8% em unidades) e faciais (+6,8%), apontando para um cenário de avanço real no consumo.
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Dentro dos cosméticos regulares para tratamentos faciais, também observamos aumento na busca por atributos mais clínicos e específicos. Enquanto o creme para os olhos cresce 25% em unidades, o sérum facial registra alta de 12,7% e o tônico facial, de 6,2%. Já itens de rotina básica, como o hidratante corporal clássico, registraram queda de 1,0% em unidades.
Comportamento por canais de venda
A leitura da Scanntech também mapeou as diferenças entre farmácias e supermercados ou atacarejos. A retração em unidades dos itens de cuidados mais básicos, como xampus regulares, condicionadores, sabonetes e hidratantes corporais, é uma realidade comum em ambos os tipos de loja, com o faturamento sustentado principalmente pelo preço. O período mais frio também compõe o contexto de consumo dessas categorias. A grande distinção, no entanto, está no que impulsiona o crescimento de cada ambiente.
“No canal Farmácia, a força motriz são os produtos de maior especialização clínica, como os xampus medicamentosos, dermocosméticos, séruns e cremes para os olhos. Já no canal Alimentar, a expansão está mais concentrada em itens complementares de higiene e cuidado pessoal, com destaque para o óleo corporal (+16,0% em unidades), desodorante em creme (+5,9%), sabonete líquido (+3,7%) e kits de xampu (+3,2%)”, afirma Priscila Ariani.
Em linha com o que a Scanntech tem mensurado sobre a venda de alimentos, os dados de produtos de beleza e cuidados pessoais evidenciam que o consumidor brasileiro, cada vez mais influenciado pela saudabilidade e pelos reflexos no corpo de tratamentos como o GLP-1, está diversificando sua cesta de cosméticos em busca de soluções direcionadas, ativos especializados e benefícios específicos.
A pesquisa realizada pela Scanntech com 2 mil respondentes reforça esse movimento: 19% dos usuários de GLP-1 indicam ter aumentado o consumo de produtos de saúde e bem-estar durante o tratamento.