Em 2025, as redes associadas à Abrafarma registraram 10 milhões de atendimentos clínicos, com média diária de 40 mil procedimentos no primeiro trimestre de 2026. O país tem hoje 9.248 salas clínicas instaladas em farmácias, crescimento de 56% na aplicação de vacinas e uma lista crescente de serviços que vai de exames rápidos de dengue e Covid-19 ao acompanhamento de pacientes crônicos. Em 2026, entrou em vigor a Lei nº 15.357, que regulamenta o consultório farmacêutico e abre espaço para a telessaúde farmacêutica, ampliando o alcance desses serviços para além das paredes do estabelecimento.

Os números confirmam o que o setor já sabia: a farmácia brasileira deixou de ser apenas um ponto de venda e está se tornando o primeiro contato de boa parte da população com o sistema de saúde. A questão agora não é mais se essa transformação vai acontecer, mas se cada estabelecimento conseguirá acompanhá-la de forma estruturada ou improvisará no caminho.
O que mudou na prática
Quando uma farmácia passa a aplicar injetáveis, realizar testes rápidos, monitorar pressão arterial e glicemia e acompanhar pacientes crônicos, ela deixa de operar apenas com produtos e passa a operar com procedimentos. E procedimento tem uma lógica diferente da de produto: exige protocolos, equipamentos em funcionamento, equipe treinada e registros adequados.
Trabalho há mais de sete anos com equipamentos médico-cirúrgicos em centros cirúrgicos, hospitais e clínicas no Ceará. O que aprendi nesse tempo é que a diferença entre um serviço clínico bem executado e outro que gera problemas raramente está na intenção de quem o executa. Está na estrutura que existe por trás. Equipamentos sem calibração, equipes sem treinamento atualizado e processos sem registro são riscos que não aparecem no dia a dia, mas surgem na hora errada.
No centro cirúrgico, esse tipo de falha tem visibilidade imediata, porque o médico está presente e o procedimento é interrompido. Na farmácia, a falha pode permanecer silenciosa por muito tempo: uma vacina conservada fora da temperatura ideal, um aparelho de aferição descalibrado que registra uma pressão incorreta ou uma caneta de GLP-1 orientada de forma inadequada. O dano aparece depois e nem sempre é rastreado até o estabelecimento.
Tecnologia e treinamento precisam caminhar juntos
A automação já chegou ao varejo farmacêutico: sistemas de dispensação automatizada, robôs de separação de doses, plataformas de agendamento e registro clínico e ferramentas de inteligência artificial para gestão de estoque e demanda. Esse avanço é real e representa um ganho significativo de eficiência operacional.
Mas tecnologia sem treinamento cria um risco específico: a equipe passa a depender do sistema sem compreender plenamente seu funcionamento. E, quando o sistema falha ou registra algo fora do esperado, ninguém sabe interpretar a situação. Já vi isso acontecer em centros cirúrgicos com equipamentos muito mais sofisticados: o monitor dispara um alarme, o técnico não sabe o que ele significa e a decisão é silenciá-lo em vez de investigar a causa.
No contexto farmacêutico, isso pode se traduzir em uma câmara de conservação com alarme de temperatura que ninguém sabe interpretar, um aparelho de aferição com erro sistemático que nunca foi verificado ou um dispensador automático que registra a saída do produto, mas não monitora suas condições de conservação. A tecnologia resolve a eficiência. O treinamento desenvolve o julgamento. Os dois precisam caminhar juntos.
Responsabilidade técnica não é opcional
Com a expansão dos serviços clínicos, cresce também a responsabilidade técnica. A Lei nº 15.357/2026 representa um avanço ao regulamentar o espaço e a atuação do profissional farmacêutico. No entanto, a regulamentação, por si só, não substitui processos internos bem definidos.
O estabelecimento que realiza procedimentos clínicos precisa ter resposta para algumas perguntas básicas: quem verifica se o equipamento de aferição foi calibrado e quando isso ocorreu pela última vez? Quem treina a equipe quando um novo serviço é incorporado? Com que frequência esse treinamento é atualizado? O que acontece quando um paciente relata um resultado aparentemente inconsistente? Como o atendimento é registrado e por quanto tempo essas informações são mantidas?
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Se essas perguntas não têm respostas claras, o estabelecimento está operando com exposição desnecessária, tanto do ponto de vista sanitário quanto da responsabilidade civil.
A vantagem de quem se estrutura agora
O mercado farmacêutico brasileiro projeta crescimento de 10,6% em 2026, ultrapassando R$ 220 bilhões em movimentação. Os serviços clínicos são um dos principais motores desse crescimento. Redes que já contam com 110 salas de vacinação, como relatam alguns grupos, construíram essa posição ao longo de anos de estruturação gradual, com investimentos em infraestrutura, capacitação e protocolos.
Para os estabelecimentos que estão começando ou expandindo agora, a vantagem competitiva não estará no serviço em si. Aferição de pressão e testes rápidos podem ser oferecidos por qualquer farmácia. O diferencial estará na qualidade da execução e na confiança que o paciente desenvolverá ao longo do tempo. Um paciente que confia no atendimento retorna, indica a farmácia para familiares e deixa de tomar decisões baseadas exclusivamente no preço.
Construir essa confiança exige consistência. E consistência, na área da saúde, resulta de processos bem definidos, equipes bem treinadas e equipamentos bem mantidos. Não há atalhos.
O que o setor ainda precisa avançar
O Brasil chegou à marca de 10 milhões de atendimentos clínicos em farmácias em um ritmo impressionante. Mas crescimento em volume, sem padronização da qualidade, cria vulnerabilidades. O desafio para os próximos anos não é apenas ampliar o número de salas e procedimentos, mas garantir que o padrão de execução acompanhe esse crescimento.
Isso passa pelo treinamento contínuo das equipes, pela manutenção preventiva dos equipamentos clínicos, pela adoção de protocolos claros de registro e rastreabilidade e pela construção de uma cultura de notificação quando algo não funciona como deveria. São práticas consolidadas há décadas no setor hospitalar e que o varejo farmacêutico precisará incorporar ao seu contexto, sem copiar integralmente o modelo hospitalar, mas também sem ignorar as lições que ele oferece.
A farmácia como ponto de cuidado é uma transformação que o mercado já validou. O próximo passo é garantir que o cuidado prestado seja, de fato, cuidado.
Matheus Moreira Soares é especialista técnico em tecnologia médica, segurança operacional, equipamentos cirúrgicos, manutenção preventiva, tecnovigilância e gestão de risco em saúde.