Por Jauri Siqueira
Para milhões de brasileiros, o primeiro passo diante de uma dúvida sobre a própria saúde já não acontece em um consultório ou hospital. Costuma ser na farmácia mais próxima. Seja para medir a pressão, fazer um exame rápido, receber uma vacina ou buscar orientação sobre um tratamento, esse estabelecimento ocupa um espaço cada vez mais estratégico na jornada de cuidado. A pergunta é se essa mudança representa apenas uma ampliação de serviços ou se estamos diante de uma nova lógica de acesso à saúde.

Os números mostram que essa transformação está em curso. Segundo dados do Ministério da Saúde, cerca de 170 milhões de brasileiros não possuem plano privado de saúde, o que aumenta a pressão sobre o SUS e faz com que alternativas mais próximas, rápidas e acessíveis ganhem relevância. Ao mesmo tempo, o envelhecimento da população e o crescimento das doenças crônicas exigem um modelo de cuidado contínuo, baseado em prevenção, monitoramento e acompanhamento, e não apenas no atendimento quando o problema se agravou.
As farmácias reúnem características difíceis de encontrar em outro ponto da rede de saúde. São mais de 94 mil estabelecimentos distribuídos pelo país, presentes tanto nos grandes centros quanto em cidades pequenas e regiões onde outros serviços de saúde são mais escassos. Essa capilaridade faz com que, para boa parte da população, a farmácia seja o serviço de saúde mais próximo de casa. Em um país de dimensões continentais, com mais de 8 milhões de quilômetros quadrados e ampla extensão territorial, com diferentes climas e sazonalidades, isso é ainda mais estratégico.
Esse movimento também foi acompanhado pela evolução regulatória. A Lei nº 13.021/2014 reconheceu as farmácias como estabelecimentos de saúde, enquanto normas da Anvisa, como as RDCs nº 197/2017 e nº 786/2023 e suas atualizações, ampliaram a oferta de vacinação, exames rápidos e mais de 100 diferentes serviços nesses locais. O resultado aparece na prática. De acordo com o Report 2025 da Clinicarx, empresa especializada em serviços clínicos para farmácias, foram realizados mais de 10 milhões de serviços farmacêuticos no ano passado, com 6,8 milhões de atendimentos distribuídos por mais de 1.500 municípios brasileiros.
Mais do que ampliar a conveniência, o modelo ajuda a reorganizar o fluxo de atendimento do sistema de saúde. Estima-se que até 80% dos casos que chegam aos prontos-socorros poderiam ser resolvidos na atenção primária, desde que existam estruturas preparadas para realizar triagem, orientação e encaminhamento adequado. O número é ainda maior quando ocorre encaminhamento efetivo a consultas com outros profissionais de saúde, sejam elas físicas ou digitais, via telessaúde. Quando esse cuidado ocorre de modo precoce, há menos filas nas emergências, menor sobrecarga hospitalar e maior eficiência na utilização dos recursos disponíveis.
Os serviços oferecidos pelas farmácias deixaram de se limitar à dispensação de medicamentos. Exames rápidos ganharam espaço como ferramentas importantes para o diagnóstico. No primeiro semestre de 2024, a realização desses exames cresceu 382% em comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo a Clinicarx. Durante a epidemia de dengue, por exemplo, mais de 500 mil testes foram realizados nas farmácias, com aproximadamente 25% dos resultados positivos, permitindo que muitos pacientes buscassem atendimento de forma mais ágil.
A vacinação é outro exemplo da evolução. Dados do Report Clinicarx 2025 mostram que a aplicação de vacinas em farmácias cresceu 56% em 2025, com 474.535 doses administradas em mais de 3 mil estabelecimentos. Além disso, o Brasil conta com mais de 8 mil estabelecimentos vacinadores privados, ampliando significativamente o acesso da população à imunização, especialmente para adultos e idosos, públicos que frequentemente apresentam cobertura vacinal abaixo do recomendado.
Talvez a mudança mais importante seja cultural. A farmácia deixou de ser vista exclusivamente como um local de compra de medicamentos para se consolidar como um ambiente de orientação, prevenção e acompanhamento. A relação frequente entre farmacêutico e paciente favorece a construção de vínculos de confiança, o monitoramento de condições crônicas e a identificação precoce de alterações que muitas vezes passariam despercebidas até se tornarem problemas mais graves.
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Isso não significa substituir médicos, hospitais ou unidades básicas de saúde. Pelo contrário. O fortalecimento da farmácia como porta de entrada do cuidado faz sentido justamente porque complementa os demais níveis de atenção. Um sistema de saúde eficiente depende de cada ponto da rede exercer bem o seu papel e de o encaminhamento do paciente ocorrer quando necessário. Quanto mais resolutivo for o primeiro atendimento, maiores são as chances de evitar complicações e utilizar os serviços especializados de forma mais racional.
O desafio para os próximos anos será consolidar esse modelo com qualidade, integração de informações, protocolos bem definidos e profissionais capacitados. O potencial está demonstrado pelos números. Agora, a oportunidade está em transformar a proximidade que a farmácia sempre teve com a população em um instrumento permanente de promoção da saúde, prevenção de doenças e cuidado contínuo. Afinal, quando o acesso ocorre mais cedo, toda a jornada do paciente tende a produzir resultados melhores.
Texto de Jauri Siqueira é gerente da BU Healthcare da Interplayers, hub de negócios da saúde e bem-estar.