A nova escala 5×2 e seus impactos no varejo farmacêutico

Escala 6x2: análise crítica de um economista além da percepção inicial
Adriano Schinetz, economista e diretor da Gestão Farma Consultoria (Foto: Divulgação)
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Por Adriano Schinetz

A proposta do Governo de ampliar ou incentivar a adoção da escala de trabalho 5×2 — cinco dias de trabalho para dois dias consecutivos de descanso — tem gerado debates relevantes no varejo farmacêutico. Trata-se de um setor caracterizado pelo funcionamento contínuo, inclusive aos finais de semana e feriados, além de sua natureza essencial à população.

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No entanto, conforme destacado em artigo anterior (Escala 6×2: Análise Crítica de um Economista além da Percepção Inicial), a concessão de folgas aos domingos e em dias consecutivos não é uma regra obrigatória, mas sim preferencial. Embora o modelo tenda a apresentar benefícios do ponto de vista social, sua aplicação no segmento farmacêutico exige cautela e adequações específicas.

A escala 5×2 pode contribuir para a melhoria da qualidade de vida dos colaboradores, reduzindo o desgaste físico e mental, especialmente em funções que demandam longos períodos em pé, atendimento direto ao público e alto nível de responsabilidade técnica. Profissionais mais descansados tendem a apresentar melhor desempenho, menor absenteísmo e maior engajamento.

Por outro lado, no varejo farmacêutico, a adoção desse modelo pode gerar um aumento significativo dos custos operacionais. Como as farmácias funcionam regularmente aos sábados, domingos e feriados, será necessário ampliar o quadro de funcionários ou recorrer com maior frequência a horas extras, adicionais noturnos e compensações, pressionando a folha de pagamento e, consequentemente, impactando os preços dos produtos ao consumidor final.

Além disso, há o risco de redução da flexibilidade na gestão das escalas, dificultando ajustes rápidos em períodos de maior demanda, como campanhas de vacinação, surtos sazonais, meses de maior fluxo ou ações promocionais. Pequenas e médias drogarias, que operam com equipes mais enxutas, tendem a ser as mais impactadas.

Outro ponto sensível é a exigência legal da presença do farmacêutico durante todo o horário de funcionamento. A adoção da escala 5×2 pode exigir a contratação de mais profissionais habilitados, elevando custos trabalhistas e encargos, o que nem sempre é acompanhado por um aumento proporcional no faturamento.

Caso a implementação da escala 5×2 ocorra sem flexibilizações específicas para o setor, pode haver perda de competitividade, especialmente frente às grandes redes, que possuem maior capacidade financeira e estrutural para absorver esses custos. Em cenários extremos, isso pode resultar na redução do horário de funcionamento, no fechamento das lojas aos domingos — o que, do ponto de vista empresarial, representa um erro grave para estabelecimentos que já operam nesse dia — ou até no encerramento de unidades menos rentáveis, ampliando o desemprego e indo na contramão do objetivo de promover bem-estar ao trabalhador.

A escala 5×2 pode representar avanços importantes na valorização do profissional do varejo farmacêutico, mas sua adoção deve considerar as particularidades de um setor que presta um serviço essencial à sociedade. Para o empresário, o desafio central será equilibrar o bem-estar da equipe, a continuidade do atendimento, o cumprimento das exigências legais e a sustentabilidade financeira do negócio.

O êxito dessa proposta dependerá do diálogo entre governo, entidades representativas e empresários, permitindo a construção de modelos flexíveis, negociados e compatíveis com a realidade das farmácias brasileiras.

Adriano Schinetz é economista e diretor da Gestão Farma Consultoria.

Foto de Revista da Farmácia

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