Crises empresariais raramente começam com falta de dinheiro

Crises empresariais raramente começam com falta de dinheiro
Anderson Ozawa, CEO da AOzawa Consultoria (Foto: Divulgação
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Por Anderson Ozawa

Os recentes pedidos de recuperação judicial de grandes empresas voltaram a colocar a saúde financeira das organizações no centro do debate. Mas talvez a pergunta mais importante não seja por que uma determinada empresa chegou a esse ponto. A pergunta mais relevante é outra: quantos sinais aparecem antes que uma companhia perceba que está entrando em uma crise?

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Empresas entram em dificuldades por razões diferentes: juros elevados, retração do consumo, endividamento, mudanças no mercado, competição, expansão mal dimensionada e decisões estratégicas equivocadas podem contribuir para esse processo, e seria simplista demais atribuir situações complexas a uma única causa.

Mas existe um padrão que merece atenção: a crise financeira quase nunca é o primeiro problema. Antes dela, aparecem perdas de margem, excesso de estoque, baixa produtividade, capital de giro pressionado, retrabalho, estruturas pesadas, decisões comerciais que não geram retorno, contratos pouco eficientes, dados inconsistentes e processos que consomem mais recursos do que deveriam.

Isoladamente, nenhum desses pontos parece suficiente para comprometer uma empresa. O risco está na acumulação. Uma organização pode continuar crescendo enquanto perde eficiência, aumentar o faturamento enquanto consome caixa, abrir novas unidades enquanto carrega operações pouco rentáveis e apresentar bons indicadores enquanto sua margem se deteriora silenciosamente. E é por isso que faturamento não pode ser confundido com saúde empresarial.

A prevenção precisa começar antes do resultado financeiro. Uma empresa não deveria descobrir sua ineficiência na DRE. Ela deveria apenas confirmar aquilo que a operação já identificou.

Quando a gestão consegue enxergar onde o valor está sendo perdido, ela ainda possui tempo para reagir. Pode rever processos, estoques, estruturas, contratos, produtividade, preços, investimentos e prioridades. Quando esses problemas aparecem apenas na falta de caixa, a capacidade de escolha já é muito menor.

É nesse ponto que prevenção de perdas e governança precisam ser entendidas de forma mais ampla. Prevenir perdas não significa apenas combater furtos, fraudes ou divergências de estoque. Significa identificar qualquer situação em que recursos, margem ou capacidade produtiva estejam sendo consumidos sem gerar valor proporcional para o negócio.

Governança executiva, por sua vez, não deve ser confundida com burocracia. Ela representa a capacidade de conectar indicadores, responsabilidades e decisões antes que pequenas ineficiências se transformem em grandes problemas.

Na prática, isso exige uma leitura integrada da empresa, em que o estoque precisa conversar com o capital de giro; as vendas precisam conversar com a margem; a produtividade precisa conversar com a estrutura; os investimentos precisam conversar com o retorno; e os dados operacionais precisam chegar rapidamente às pessoas que possuem autoridade para decidir.

Leia também: Como realizar o controle de validade corretamente na farmácia

Muitas crises poderiam, ao menos, ser enfrentadas mais cedo se esses sinais fossem tratados como alertas, e não como parte normal da operação. Porque existe um momento em que a empresa ainda está diante de um problema de gestão e, depois, pode passar a enfrentar um problema financeiro e, se nada mudar, o problema pode se transformar em uma questão de sobrevivência.

A diferença entre esses estágios está, muitas vezes, na velocidade com que a organização identifica e enfrenta aquilo que está destruindo valor. Empresas raramente perdem sua capacidade financeira de uma hora para outra. Antes disso, normalmente perderam margem, produtividade, eficiência, controle ou capacidade de reação. O caixa é apenas o lugar onde todas essas perdas finalmente se encontram.

Texto escrito por Anderson Ozawa, CEO da AOzawa Consultoria, especialista em Prevenção de Perdas e Governança.

Foto de Revista da Farmácia

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