Os 20 anos da Lei dos Medicamentos Genéricos precisam ser celebrados e divulgados

Remédio genérico em cima da bancada da farmácia
Foto: Divulgação
Publicidade

No Brasil, a Lei dos Medicamentos Genéricos (nº 9.787) foi implementada, em 10 de fevereiro de 1999, com um objetivo macro muito claro: ampliar o acesso da população a tratamentos eficazes, seguros e, obviamente, mais baratos. É, sem exageros, um marco na saúde pública do País.  

Na prática, a lei viabilizou a comercialização de medicamentos com patentes expiradas para laboratórios que tiverem interesse em produzi-los. Nesses 20 anos, a economia gerada pelo genérico já ultrapassa a casa dos R$ 120 milhões. Todavia, um olhar mais atento sobre esse cenário pode mostrar um leque ainda maior de benefícios, que também deve ser mencionado, tamanho o rearranjo que provocou no mercado. 

O primeiro benefício diz respeito à regulação. Com regras claras estabelecendo padrões de segurança, os medicamentos genéricos chegam ao consumidor com sua eficácia garantida. A partir daí, foi possível aperfeiçoar a indústria farmacêutica como um todo. 

A expertise regulatória também foi ponto de partida para elevar a régua da qualidade dos medicamentos no Brasil. O texto da lei foi promulgado em total concordância com legislações de países desenvolvidos, como os Estados Unidos e Canadá. Hoje, esses dois países nos dão bons exemplos de maturidade de mercado com números dignos de nota. Nos EUA, os genéricos respondem por uma fatia de 75%, enquanto o Canadá registra 90%. Isso demonstra o grande e desafiador potencial de crescimento que temos do lado de cá do trópico – no Brasil, a compra de medicamentos genéricos corresponde a menos de 35%, segundo dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). 

Retomando o quesito qualidade, a Lei dos Genéricos também determinou como obrigatória a comprovação da compatibilidade terapêutica. É sabido que, para a produção de um genérico, usa-se o medicamento de referência como modelo, sem a necessidade de estudos clínicos, que encarecem consideravelmente o processo. O que garante a compatibilidade entre o medicamento referência e o genérico são os testes de bioequivalência – esses, sim, imperativos de acordo com a lei. Quando a qualidade do genérico é posta em xeque, também é válido lembrar que, aqui no Brasil, o órgão que valida e autoriza o lançamento de medicamentos – sejam genéricos ou de referência – é sempre o mesmo, a Anvisa.  

O rebuliço que sucedeu a lei provocou profundas mudanças na indústria e reconfigurou o mercado. A dinâmica passou a ser protagonizada pelo preço e estimulou a concorrência, obrigando fabricantes a rever, por exemplo, os valores de medicamentos de referência. As empresas de genéricos, por sua vez, apostaram no requinte da produção e aprimoraram seus produtos. Na ponta, o consumidor era, e ainda é, o principal beneficiado.  

Facilitar o acesso e a adesão da população ao tratamento de doenças implica necessariamente preços menores. A lei estabelece que o medicamento genérico deve custar 35% menos que o de referência e essa margem pode ser mais expressiva, a depender das políticas praticadas nos laboratórios. 

Aliviar gastos da população e dos sistemas de saúde públicos, que se tornam cada vez mais sobrecarregados, é uma grande conquista. Hoje, podemos contar com o tratamento das doenças e sintomas que mais acometem a população por um preço menor. Por isso, o aniversário de 20 anos da Lei dos Medicamentos Genéricos precisa ser lembrado, divulgado, celebrado.  

Foto de Érica Sambrano

Érica Sambrano

Érica Sambrano é diretora Comercial da Sandoz, divisão da Novartis e líder mundial em medicamentos genéricos e biossimilares.
Compartilhe
Publicidade

Receba as principais notícias direto no seu celular

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Publicidade

Veja também

A farmácia não precisa de inteligência artificial no balcão

Por Leonardo Gouveia Sete e meia da manhã de uma segunda-feira. A porta abre e entram três pessoas quase juntas. Uma senhora com receita de anti-hipertensivo, um rapaz querendo saber

A Meta não criou um novo custo. Ela apenas colocou preço na ineficiência

Por Sérgio Gwercman As grandes transformações tecnológicas raramente começam pela tecnologia. Elas começam quando muda a lógica econômica que sustenta aquela tecnologia. Foi assim com a computação em nuvem. Durante

Comprar online: uma conta que vai além do preço

Por Talita Poleto Ainda existe uma percepção muito comum entre os brasileiros: comprar na farmácia pelo aplicativo é mais caro. Mas será que isso ainda é verdade? Curiosamente, essa lógica

Crises empresariais raramente começam com falta de dinheiro

Por Anderson Ozawa Os recentes pedidos de recuperação judicial de grandes empresas voltaram a colocar a saúde financeira das organizações no centro do debate. Mas talvez a pergunta mais importante

A farmácia virou ponto de cuidado. Agora precisa operar como tal

Por Matheus Moreira Soares Em 2025, as redes associadas à Abrafarma registraram 10 milhões de atendimentos clínicos, com média diária de 40 mil procedimentos no primeiro trimestre de 2026. O

Se as vacinas salvam vidas, por que ainda é tão difícil ampliar a cobertura?

Por Jauri Siqueira A importância da vacinação dificilmente é questionada. O desafio está em transformar esse consenso em ação. Apesar dos avanços científicos e da ampla oferta de imunizantes, o

Não existem mais matérias para exibir.
Publicidade
Utilizamos cookies para garantir que você tenha a melhor experiência em nosso site. Se você continuar a usar este site, vamos assumir que você está feliz com isso.