Se as vacinas salvam vidas, por que ainda é tão difícil ampliar a cobertura?

Se as vacinas salvam vidas, por que ainda é tão difícil ampliar a cobertura?
Jauri Siqueira, gerente da BU Healthcare da Interplayers (Foto: Divulgação)
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Por Jauri Siqueira

A importância da vacinação dificilmente é questionada. O desafio está em transformar esse consenso em ação. Apesar dos avanços científicos e da ampla oferta de imunizantes, o Brasil enfrenta dificuldades para manter altas coberturas vacinais em diferentes faixas etárias. O problema não está apenas na disponibilidade das vacinas e no acesso a elas, mas também na capacidade de fazer com que a imunização faça parte da rotina das pessoas.

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A prevenção precisa acompanhar a dinâmica da vida moderna. Quanto mais simples for o acesso, maiores são as chances de a população manter a carteira vacinal atualizada. Isso exige uma rede de atendimento diversificada, capaz de oferecer conveniência sem abrir mão da segurança, além de um sistema que conecte informações para que cada paciente saiba quando precisa retornar para uma nova dose ou reforço, ou ainda complementar sua carteira com vacinas atrasadas, muitas vezes desconhecidas tanto pela população quanto por alguns profissionais de saúde.

O mercado privado de vacinação movimenta cerca de R$ 2,9 bilhões por ano, aplica mais de 9,2 milhões de doses anualmente e reúne aproximadamente 8,5 mil estabelecimentos entre clínicas e outros pontos de vacinação. Os números mostram que ampliar o acesso aos imunizantes deixou de ser uma responsabilidade exclusiva do setor público e passou a envolver diferentes atores do sistema de saúde. Atualmente, o mercado privado conta com um cenário diversificado, formado por clínicas de vacinação, farmácias vacinadoras, consultórios, laboratórios, hospitais e serviços de vacinação domiciliar.

As farmácias ilustram bem essa transformação. Segundo dados da Clinicarx, empresa especializada em serviços clínicos em farmácias, o Brasil conta com mais de 3 mil farmácias vacinadoras. Apenas em 2025, foram aplicadas 474.535 doses, um crescimento de 56% em relação ao ano anterior. Quando a vacinação está disponível em locais que fazem parte da rotina das pessoas, a prevenção deixa de depender de um planejamento complexo e passa a ser incorporada ao cotidiano.

Esse avanço acontece em um momento em que o perfil da população brasileira também está mudando. O envelhecimento demográfico aumenta a necessidade de proteção contra doenças como influenza, herpes zóster, pneumonias e vírus sincicial respiratório, enquanto o crescimento das doenças crônicas reforça a importância da vacinação como parte do cuidado contínuo. Não se trata apenas de evitar infecções, mas de reduzir complicações, internações e impactos sobre todo o sistema de saúde.

Ao mesmo tempo, ampliar os pontos de vacinação é apenas uma parte da solução. É necessário organizar melhor a jornada do paciente. Carteiras vacinais digitais, integração entre serviços e sistemas de notificação como RNDS e SIPNI, lembretes automáticos e uso inteligente de dados podem reduzir esquecimentos, facilitar o acompanhamento do calendário vacinal e apoiar decisões mais eficientes por parte dos profissionais de saúde. A prevenção depende da continuidade e, nesse contexto, a informação também se torna uma ferramenta de cuidado.

Leia também: Primeiro curso híbrido de vacinação de 2026 é realizado pela Ascoferj e pelo ICTQ

A experiência recente mostrou que a vacinação ganha força durante grandes campanhas ou diante de emergências sanitárias. O verdadeiro desafio, porém, é manter essa cultura ativa quando não há uma crise em evidência. A imunização precisa deixar de ser lembrada apenas em momentos específicos para ocupar um espaço permanente nas estratégias de promoção da saúde.

Ampliar a cobertura vacinal não depende somente da produção de novas vacinas. Depende de aproximá-las das pessoas, reduzir barreiras de acesso e construir uma jornada mais simples, integrada e contínua. Quando isso acontece, os benefícios vão além de quem recebe uma dose: todo o sistema de saúde ganha.

*Jauri Siqueira é gerente comercial da BU Healthcare da Interplayers, hub de negócios em saúde e bem-estar, reconhecida por suas iniciativas disruptivas e pelo uso de tecnologia de ponta.

Foto de Revista da Farmácia

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