Do pipeline futuro ao acesso local: desafios e oportunidades na cadeia farmacêutica global

Enquanto a antecipação de terapias inovadoras aponta para o futuro, os desertos farmacêuticos revelam lacunas no presente.
Do pipeline futuro ao acesso local: desafios e oportunidades na cadeia farmacêutica global
Rodrigo Salvo Henriques, farmacêutico‐bioquímico com mais de 20 anos de experiência em distribuição farmacêutica, qualidade e otimização da cadeia de suprimentos de saúde
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Por Rodrigo Salvo Henriques

Duas vertentes recentes do mercado farmacêutico merecem nossa atenção simultânea: por um lado, o anúncio dos “10 medicamentos mais esperados de 2025” demonstra o vigor da indústria em inovação terapêutica. Por outro, o fenômeno dos “desertos farmacêuticos” nos Estados Unidos – territórios onde as pessoas precisam percorrer longas distâncias até encontrar uma farmácia – evidencia que o acesso físico e logístico ainda é um gargalo estrutural. A intersecção dessas duas realidades – o pipeline promissor e o acesso limitado – exige reflexão e ação estratégica para todos os elos da cadeia de suprimentos.

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Inovação em pipeline: expectativa e impacto logístico

Segundo levantamento da Associação Brasileira de Distribuição e Logística de Produtos Farmacêuticos (Abradilan), os dez medicamentos com maior expectativa para 2025 incluem terapias para fibrose cística, dor neuropática, cardiomiopatia e diversos tipos de câncer. Por exemplo, o medicamento Alyftrek, voltado para fibrose cística, projeta vendas de US$ 8,3 bilhões até 2030.

Esse nível de inovação traz implicações diretas para a cadeia:

  • Novas terapias exigem controle rigoroso de temperatura, rastreabilidade de lote e duração de validade;

  • A previsão de volume e demanda deve ser mais precisa para evitar rupturas ou obsolescência;

  • A logística de distribuição deve estar à altura para levar essas terapias até centros especializados, além de farmácias e unidades de saúde.

Para distribuidores e prestadores de serviços logísticos, isso significa investir em tecnologia (IoT, monitoramento em tempo real), equipe qualificada e processos auditáveis — fatores que orientam meu trabalho diário.

Acesso desigual: desertos farmacêuticos como alerta operacional

Por outro lado, o relatório da GoodRx Health revelou que aproximadamente 46% das cidades nos EUA já se enquadram como “deserto farmacêutico”, conforme definição de acesso à farmácia (mais de 1,6 km em áreas urbanas, 16 km em zonas rurais) para parte da população.

Essa situação acende um sinal amarelo importante para quem opera no Brasil e em mercados com geografia complexa ou desigual:

  • Ter um produto inovador não basta se ele não estiver fisicamente acessível para o paciente;

  • A infraestrutura de distribuição, transporte e último-milha exige modelagem diferenciada para áreas remotas ou carentes;

  • O controle quantitativo da cadeia deve considerar não apenas volumes, mas territórios de acesso, investindo também em parcerias regionais, estoques descentralizados e integração digital.

Em resumo: mesmo com terapias de ponta chegando ao mercado, a eficácia delas se perde se o “mão-na-mão” com o paciente não for garantido.

O cruzamento entre inovação e acesso: desafios operacionais e estratégicos

Ao olharmos para ambos os cenários, terapias esperadas e acesso limitado, entendemos que a cadeia de suprimentos farmacêutica enfrenta uma bifurcação:

  • Desafio A: Gerenciar complexidade crescente de produtos (durabilidades mais curtas, requisitos técnicos mais rigorosos).

  • Desafio B: Garantir que mesmo em localidades de difícil acesso ou menor densidade populacional os produtos cheguem com segurança, rastreabilidade e pontualidade.

Na minha função como diretor de Distribuição Farmacêutica, Qualidade e Otimização da Cadeia de Suprimentos de Saúde na R S Henriques – Comércio e Representações Ltda., onde lidero operações que envolvem armazenagem, rastreabilidade, transporte e entrega, percebo que três vetores são fundamentais para transformar os desafios em oportunidades:

  • Planejamento de demanda e estoque: com terapias inovadoras, a precisão da previsão e a adoção de metodologias como FEFO (First Expired, First Out) tornam-se imprescindíveis para reduzir perdas e garantir entrega.

  • Logística adaptada ao contexto local: áreas remotas ou menos servidas exigem modais especiais, qualificação do transporte, rastreabilidade de ponta e controle ambiental — competências que a R S Henriques vem desenvolvendo no Amazonas.

  • Integração digital e visibilidade da cadeia: desde o fabricante até o ponto de consumo, a interoperabilidade dos dados assegura rastreabilidade, reduz gargalos e permite identificar rapidamente desvios de acesso ou ruptura — essencial diante dos desertos farmacêuticos.

Um chamado à ação para distribuidores, reguladores e indústrias

Minha mensagem para o setor é clara: não basta celebrar os avanços terapêuticos nem focar apenas em dimensões operacionais isoladas. O verdadeiro diferencial está em construir uma cadeia end-to-end — da inovação ao paciente — que seja resiliente, acessível e sustentável.

  • Para indústrias: pensar logística desde a concepção do produto, considerando distribuição e acesso.

  • Para distribuidores: investir em tecnologia, rastreabilidade, planejamento de estoque e adaptação geográfica.

  • Para reguladores e gestores públicos: apoiar modelos híbridos que combinem produção, distribuição e acesso, reduzindo desertos e promovendo inclusão.

Nesse cenário, o Brasil tem uma oportunidade singular: com uma base de farmácias bem distribuída, ambiente regulatório em evolução e projetos de fortalecimento da indústria nacional, podemos antecipar os ganhos da inovação e alcançar o acesso equitativo.

Foto de Revista da Farmácia

Revista da Farmácia

Por meio da Revista da Farmácia, empresários e profissionais se mantêm informados sobre as mais eficientes técnicas de planejamento, gestão, vendas, boas práticas farmacêuticas, entre outros temas.
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