Por Rafaeli Wingler
“A NR-1 não é sobre pessoas frágeis. É sobre ambientes que podem estar adoecendo pessoas”.
Talvez essa seja a forma mais simples de explicar uma das principais mudanças nas relações de trabalho.

Nos últimos meses, muito se falou sobre a atualização da NR-1. Surgiram dúvidas, interpretações diferentes e uma pergunta recorrente entre empresários e gestores: afinal, a empresa precisa fazer alguma coisa agora?
A resposta é sim.
Independentemente das discussões jurídicas sobre prazos de fiscalização, há uma mudança importante na forma como as organizações devem enxergar a saúde mental no ambiente de trabalho. E essa transformação já está em curso.
O que a NR-1 passou a exigir?
A Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) estabelece as diretrizes gerais do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). Com a atualização promovida pela Portaria MTE nº 1.419/2024, os fatores de risco psicossociais passaram a integrar, de forma expressa, esse gerenciamento.
Na prática, fatores como sobrecarga de trabalho, assédio moral, jornadas excessivas, conflitos constantes, falta de clareza nas responsabilidades e pressão contínua por resultados também devem ser identificados, avaliados e tratados pelas empresas, assim como já ocorre com os riscos físicos, químicos, biológicos, ergonômicos e de acidentes.
Para as farmácias, onde o atendimento ao público, a gestão de equipes e o cumprimento de metas fazem parte da rotina, essa análise se torna ainda mais relevante para prevenir o adoecimento dos colaboradores e fortalecer um ambiente de trabalho saudável.
O maior erro de interpretação
Existe um ponto que considero essencial.
Muitas pessoas acreditam que a NR-1 pretende avaliar a saúde mental dos colaboradores, mas não é isso.
A norma não busca identificar quem é mais resistente ou mais vulnerável emocionalmente. Ela busca entender se a forma como o trabalho está organizado cria fatores que favorecem o adoecimento.
Essa diferença muda completamente a forma de enxergar o tema. A responsabilidade deixa de estar exclusivamente na capacidade do indivíduo de lidar com a pressão e passa a incluir as condições de trabalho oferecidas pela organização.
Na minha visão, essa é uma das mudanças culturais mais importantes dos últimos anos.
A suspensão das multas muda esse cenário?
Recentemente, uma decisão do STF suspendeu, por 90 dias, a eficácia sancionatória de alguns dispositivos relacionados aos fatores psicossociais da NR-1.
Na prática, durante esse período, esses itens não podem fundamentar multas ou autuações específicas. A suspensão ainda será analisada pelo Plenário do STF entre os dias 7 e 18 de agosto de 2026, quando poderá ser mantida, ampliada ou revertida.
Mas existe um ponto que não muda: a suspensão das multas não elimina os riscos.
Os afastamentos continuam acontecendo. Os pedidos de indenização continuam acontecendo. A rotatividade continua acontecendo. Empresas com ambientes adoecidos continuam sofrendo impactos financeiros, jurídicos e humanos.
Esperar apenas pela fiscalização pode significar perder uma oportunidade importante de prevenir problemas e fortalecer a cultura organizacional.
O que as farmácias precisam fazer?
Entre as principais medidas recomendadas estão:
- Incluir os fatores psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR);
- Avaliar as condições reais de trabalho, considerando também os parâmetros previstos na NR-17;
- Utilizar metodologias estruturadas para identificar e avaliar os riscos;
- Documentar as avaliações realizadas e os critérios adotados;
- Revisar periodicamente a eficácia das medidas implementadas.
Mais do que cumprir uma obrigação legal, esse processo permite que a empresa tome decisões baseadas em evidências e promova melhorias contínuas no ambiente de trabalho.
Uma oportunidade para fortalecer a gestão
A atualização da NR-1 não deve ser encarada apenas como uma exigência legal.
Ela representa uma oportunidade para aprimorar a gestão de pessoas e fortalecer a cultura organizacional.
Ao identificar fatores que geram sobrecarga, conflitos, afastamentos ou perda de produtividade, a empresa consegue atuar nas causas dos problemas, e não apenas em suas consequências.
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Organizações que investem em ambientes de trabalho mais saudáveis tendem a fortalecer o engajamento das equipes, reduzir a rotatividade, melhorar a comunicação interna e alcançar resultados mais sustentáveis.
Nesse contexto, a saúde mental deixa de ser apenas uma pauta do setor de Recursos Humanos e passa a integrar a estratégia do negócio.
Minha experiência na prática
Ao longo de mais de 15 anos de atuação em Gestão de Pessoas, tenho acompanhado empresas de diferentes segmentos na implementação dessas mudanças.
Existe uma conclusão que sempre se repete: as organizações que iniciam esse trabalho antes da obrigatoriedade costumam enfrentar o processo com muito mais tranquilidade do que aquelas que esperam apenas pela fiscalização.
A prevenção sempre custa menos do que corrigir problemas depois que eles já impactaram pessoas, resultados e reputação.
Uma reflexão para finalizar
Se esse tema também representa um desafio para a sua empresa, talvez este seja o momento de entender por onde começar. Transformar uma norma que parece complexa em um plano de ação simples, prático e alinhado à realidade da organização é o primeiro passo para promover ambientes de trabalho mais saudáveis e sustentáveis.
Acredito que empresas saudáveis são construídas quando pessoas e resultados caminham na mesma direção.
“A NR-1 não veio para rotular pessoas. Ela veio para ajudar as empresas a enxergarem aquilo que, por muito tempo, foi tratado como invisível: os riscos presentes na forma como o trabalho é organizado”.
Sobre a autora
Rafaeli Wingler é especialista em Recursos Humanos, Cultura Organizacional e Gestão de Riscos Psicossociais, com mais de 15 anos de experiência em Gestão de Pessoas. Fundadora da WON Gestão, atua apoiando empresas na implementação da NR-01 de forma prática e alinhada às exigências legais, promovendo ambientes de trabalho mais saudáveis e estratégias de gestão sustentáveis.