Por Thamires Cappello
Desde que aprovadas para uso, as canetas emagrecedoras — como as que possuem semaglutida e tirzepatida — transformaram o cenário do emagrecimento no Brasil. No entanto, uma investigação conduzida pela Anvisa no início do ano revelou que o comércio eletrônico ilegal desses medicamentos cresceu de forma expressiva, levando à intensificação da fiscalização e à suspensão de sites e perfis em redes sociais que comercializavam os fármacos sem exigir receita médica.

Além disso, dados oficiais divulgados pela agência após a implementação da nova regra de retenção obrigatória da receita médica apontam que as notificações de efeitos colaterais graves decorrentes do uso inadequado dessas substâncias aumentaram consideravelmente, o que motivou, inclusive, a criação de um plano de monitoramento contínuo de reações adversas. Diante disso, o tema passou a configurar uma crise de saúde pública.
Nesse contexto, torna-se evidente que o fenômeno das canetas emagrecedoras ultrapassou os limites dos consultórios médicos e se transformou em um desafio coletivo urgente. A banalização de medicamentos de alta complexidade — frequentemente tratados como soluções estéticas milagrosas nas redes sociais — mascara riscos importantes relacionados ao uso inadequado e sobrecarrega o sistema de saúde com complicações que poderiam ser evitadas.
Para que o Brasil consiga conter esse cenário, não basta apenas intensificar a fiscalização do comércio ilegal. É fundamental promover uma conscientização ampla sobre os limites da automedicação e democratizar o acesso ao tratamento seguro da obesidade.
O uso indiscriminado dessas substâncias para fins puramente estéticos, sem acompanhamento profissional, expõe o organismo a diversos riscos, como reações adversas severas, incluindo casos de pancreatite aguda, problemas na vesícula biliar e distúrbios gastrointestinais graves, entre outros. A automedicação ou a aquisição de produtos por vias clandestinas aumenta significativamente a chance de ingestão de doses inadequadas. Além disso, o emagrecimento rápido sem diagnóstico adequado pode ocultar problemas metabólicos ou endócrinos subjacentes.
O cenário de descontrole levou a Anvisa a endurecer as regras e determinar que as canetas emagrecedoras só possam ser comercializadas mediante a retenção obrigatória da receita médica em duas vias. Sem o acompanhamento de um profissional de saúde para avaliar critérios metabólicos e endócrinos, o comércio paralelo tende a ganhar força. Nesse sentido, o fácil acesso a produtos irregulares pela internet e em regiões de fronteira acendeu um alerta na Polícia Federal e na Receita Federal, diante do crescimento do contrabando e da circulação de lotes falsificados no país.
Outro ponto que merece atenção diz respeito ao descarte inadequado desses produtos. Diferentemente de medicamentos em comprimidos, essas canetas são compostas por materiais plásticos, componentes eletrônicos e resíduos biológicos perfurocortantes, como agulhas. O descarte no lixo comum ou na reciclagem representa um risco elevado de contaminação do solo e de transmissão de doenças a profissionais da limpeza urbana e catadores.
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O avanço da medicalização da estética impacta a sociedade como um todo, ao incentivar a automedicação e o descumprimento de normas sanitárias, configurando um problema de saúde pública. Para enfrentar esse desafio, especialistas e autoridades defendem o aprimoramento regulatório, com maior rigor na fiscalização de farmácias de manipulação, clínicas de estética e plataformas digitais.
Além disso, torna-se essencial a realização de campanhas que combatam a influência de padrões estéticos disseminados de forma irresponsável nas redes sociais, ampliando a conscientização digital. Também é necessário educar a população sobre o fato de que essas canetas são medicamentos de alto custo, indicados para o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2, e não soluções milagrosas de uso trivial.
Em última análise, o debate sobre as canetas emagrecedoras reforça a importância de tratar a obesidade como uma condição de saúde que exige acompanhamento adequado, informação de qualidade e uso consciente da medicação. Embora esses tratamentos representem um avanço significativo para pacientes com indicação clínica, o uso sem orientação profissional pode trazer riscos e comprometer a segurança terapêutica.
Assim, ampliar o acesso à informação, fortalecer a conscientização sobre os riscos da automedicação e incentivar o acompanhamento médico são passos fundamentais para que essas terapias sejam utilizadas de forma responsável e segura.
Texto de Thamires Cappello, diretora jurídica da Voy, empresa de gestão de saúde que oferece acesso a jornadas de emagrecimento.