NRF 2026: equilibrando a automação brutal com ter uma humanidade radical

Tendências para o varejo em 2025: o fim do déjà vu
Elói Assis, diretor-executivo de produtos para Varejo da TOTVS (Foto: Divulgação)
Publicidade

*Por Elói Assis

Ao final de cada edição da NRF, saímos com a cabeça borbulhando de ideias, mas também com uma visão mais clara sobre a jornada do varejo. Em 2026, após acompanhar as várias palestras, andar pelo pavilhão de exposições e muitas conversas paralelas, cheguei a uma visão que estou chamando do paradoxo do Varejo – como ser brutalmente automatizado e entregar uma experiência altamente humanizada.

Espaço publicitário

Digo paradoxo porque estamos vendo nascer um novo e potente motor para o varejo, chamado inteligência artificial, mas que precisa rumar na direção apontada pela bússola do consumidor, que aponta para um varejo altamente humano e guiado por propósito. Mas não podemos esquecer que o terreno que teremos que percorrer é desafiador e incerto.

1. IA: de ferramenta mágica a coração do ecossistema

Se há alguns anos a inteligência artificial era tratada como um conceito quase mágico, a NRF 2026 mostrou sua “comoditização”. A IA deixou de ser o milagre para se tornar o motor, uma ferramenta prática e cada vez mais acessível que nos ajuda a executar velhas tarefas de formas completamente novas e eficientes.

O grande salto, porém, não está apenas na automação de processos, mas em como esse motor está impulsionando uma mudança estratégica fundamental: a transformação do varejo no centro de um ecossistema amplo e muito mais completo. Cases de gigantes como Fanatics, CVS e a nossa brasileira Magalu mostraram que o jogo não é mais apenas sobre vender um produto, mas sobre resolver múltiplos problemas do cliente a partir da confiança já estabelecida. O varejo se torna o ponto de partida para um universo de serviços financeiros, mídia, bem-estar e conteúdo, criando novas fontes de receita com margens mais altas e barreiras competitivas quase intransponíveis.

Nesse contexto, o “Comércio Agêntico”, com a ideia de que IAs farão as compras por nós, ainda me parece um futuro distante. O que vemos de concreto é a necessidade de preparar nossos negócios para o GEO (Generative Engine Optimization), ou seja, otimizar nossos cadastros e dados para que os produtos sejam “encontráveis” e “compráveis” por essas novas interfaces. A decisão final ainda é do consumidor, mas ele está, sem dúvida, mais empoderado por seus copilotos de IA.

Aqui, a questão é sobre como tirar o maior valor possível desse novo motor para buscar uma eficiência brutal em todos os aspectos – operacionais, comerciais e estratégicos.

2. Propósito: conquistando com autenticidade o consumidor Zalpha

Com um motor tão potente, a pergunta inevitável é: para onde estamos indo? O segundo dia da NRF respondeu com clareza: a direção é dada pelo propósito e pela humanidade. A eficiência da IA precisa ser equilibrada com a autenticidade da conexão humana.

Essa necessidade é ditada pela nova força dominante do consumo: os “Zalphas” (a união da Geração Z e Alpha). Nativos digitais, eles curiosamente anseiam por experiências reais e táteis. Uma pesquisa apresentada no evento foi categórica: 86% dos consumidores da Geração Z querem tocar nos produtos antes de comprar. Eles usam o digital para descobrir, mas valorizam a loja física como um hub de experiências e comunidade.

Ao mesmo tempo, sua relação com o conteúdo é absurdamente veloz. Em uma palestra sobre o TikTok Shop, um insight me marcou: você tem apenas três segundos para capturar a atenção desse consumidor. A jornada dele não é de busca, mas de descoberta, impulsionada pelo entretenimento (“retailtainment”) e pela confiança em criadores de conteúdo.

E o mais importante: esse consumidor não quer ser enganado pela IA. Ele exige transparência. Se a interação é com um bot, ele quer saber. A tecnologia é bem-vinda, mas a falta de autenticidade é desprezada. A confiança em uma pessoa ou em uma comunidade online supera, de longe, qualquer publicidade tradicional.

Nesse ponto, ganha o jogo o oposto da automação: quanto mais humana e genuína sua relação com seus clientes, maiores suas chances de fidelizá-lo.

3. O terreno desafiador e a necessidade de combustível

Entendido o motor e a bússola, precisamos encarar o terreno à frente, e ele é feito de dúvidas e incertezas. O cenário macroeconômico global traz imprevisibilidade, e o próprio consumidor, agora co-pilotado pela IA, torna os velhos mapas de comportamento cada vez mais obsoletos.

No entanto, tão delicado quanto o terreno externo é o perigo que mora dentro do nosso próprio “tanque de combustível”. Ao visitar o pavilhão de startups, vi uma avalanche de soluções prometendo usar IA para limpar e organizar os dados das empresas. À primeira vista, parece ótimo, mas a meu ver é o sintoma do grande paradoxo do varejo atual.

Há anos pregamos que “se entra lixo, sai lixo” (garbage in, garbage out). E com IA não é diferente, não se tem IA de qualidade sem dados de qualidade. Agora, o mercado oferece a própria IA como remédio para a má qualidade dos dados dos quais ela mesma precisa se alimentar para funcionar. É como usar um motor que falha para refinar o combustível adulterado que o está fazendo falhar. O risco de amplificar erros e tomar decisões piores, mas em uma velocidade assustadora, é grande.

Leia também: Antecipando desafios da Reforma Tributária, Requim adota ERP da TOTVS e aumenta segurança fiscal

A tarefa mais crítica para o varejista hoje não é sair em busca do algoritmo mais avançado. É voltar para casa e fazer uma auditoria rigorosa no seu tanque de combustível, garantindo a governança e a qualidade dos dados na origem, é fazer o básico bem feito.

O recado final da NRF 2026 é um chamado à ação. A revolução da IA no varejo começará não com a compra de uma nova tecnologia, mas com o compromisso inflexível de que esse novo potente motor será guiado por uma bússola de propósito e alimentado pelo combustível mais puro e confiável que existe: dados de qualidade.

Foto de Revista da Farmácia

Revista da Farmácia

Por meio da Revista da Farmácia, empresários e profissionais se mantêm informados sobre as mais eficientes técnicas de planejamento, gestão, vendas, boas práticas farmacêuticas, entre outros temas.
Compartilhe

Receba as principais notícias direto no seu celular

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Veja também

Por Sabrina Oliveira Conformidade não é burocracia. É blindagem empresarial. O varejo farmacêutico evoluiu em tecnologia, digitalização e experiência do cliente. No entanto, um ponto crítico ainda compromete muitas operações:

Por Sabrina Oliveira A alta de acidentes com motociclistas acende alerta para farmácias que operam com delivery e utilizam prestadores de serviço. O delivery transformou o varejo farmacêutico. O que

Por Carlos Heemann Rosauro Durante muito tempo, o relacionamento entre farmácias e indústria foi pautado quase exclusivamente pelo volume de compra. Quanto mais se comprava, maior parecia ser a relevância

Por Rodrigo Ferreira Durante muito tempo, bastava comprovar que um medicamento funcionava. A eficácia clínica era o principal argumento para conquistar espaço em prateleiras, protocolos e prescrições. Essa época passou.

Por Francisco Neves Ao longo dos últimos anos, o setor de suplementos passou por uma transformação relevante, e 2025 consolidou esse movimento. Se antes a inovação estava concentrada quase exclusivamente

Por Rodrigo Salvo Henriques Nos últimos anos, um fenômeno inesperado abalou o varejo farmacêutico no Brasil e em outros mercados da América Latina: a explosão da demanda por medicamentos injetáveis

Não existem mais matérias para exibir.
Utilizamos cookies para garantir que você tenha a melhor experiência em nosso site. Se você continuar a usar este site, vamos assumir que você está feliz com isso.