Como a popularização dos GLP-1 pode transformar o consumo no Brasil

Brasil lidera conhecimento sobre medicamentos para perda de peso na América Latina, mas adoção ainda é baixa.
Adobestock 1911173396
Publicidade

O início das vendas de versões brasileiras dos medicamentos para perda de peso à base de semaglutida, nesta semana, promete popularizar o uso e provocar mudanças que vão muito além da saúde. A experiência de mercados mais maduros mostra que a adoção desses tratamentos tem potencial para transformar hábitos de consumo, reduzir gastos com alimentos e bebidas e criar oportunidades para novas categorias de produtos.

Whatsapp Image 2026 06 24 At 08.19.00
Espaço publicitário

Dados inéditos da Worldpanel by Numerator, provenientes de pesquisa realizada entre março e abril deste ano, revelam que o tema já ocupa espaço relevante na rotina dos consumidores latino-americanos, com 32,5% dos lares da região afirmando conhecer os medicamentos para emagrecimento — ante 26,6% em 2025.

No Brasil, o interesse é ainda mais expressivo. Com 76% de awareness, o país apresenta o maior nível de conhecimento sobre medicamentos para perda de peso na América Latina — um avanço de 6 pontos percentuais em relação a 2025 (70%), refletindo o forte interesse e a ampla repercussão das chamadas canetas emagrecedoras. Apesar disso, a adoção ainda permanece restrita.

Apenas 2,4% dos domicílios brasileiros declaram contar atualmente com pelo menos um usuário desses medicamentos. Entre os lares das classes A e B, a penetração sobe para 4,3%, em linha com o percentual de uso observado entre os lares que conhecem os produtos (4%). Isso evidencia que o consumo ainda está concentrado entre famílias de maior poder aquisitivo, cenário que tende a mudar com a chegada das opções nacionais ao mercado.

O contraste entre alto nível de conhecimento e baixa utilização sugere um mercado com elevado potencial de expansão nos próximos anos, especialmente à medida que novos medicamentos chegam ao mercado e os tratamentos se tornam mais acessíveis.

O cenário brasileiro chama ainda mais atenção quando analisado sob a ótica dos hábitos alimentares. Entre os países avaliados pelo estudo na América Latina, o Brasil apresenta o menor índice de consumidores que afirmam seguir uma alimentação equilibrada. Nesse contexto, a crescente popularidade dos medicamentos à base de GLP-1 pode atuar como catalisador de mudanças no comportamento alimentar, impulsionando escolhas mais saudáveis e transformando categorias inteiras dentro e fora do setor de alimentos.

Mais do que uma tendência ligada à saúde, o fenômeno já influencia a forma como os consumidores encaram a alimentação. Na América Latina, dados de 2025 mostram que, entre aqueles que iniciaram ou cogitavam iniciar o uso dos medicamentos, 59% afirmaram reduzir a compra de bebidas açucaradas, 55% diminuíram o consumo de alimentos gordurosos e 51% reduziram a compra de produtos com açúcar.

Reino Unido antecipa possíveis impactos para o Brasil

A experiência britânica oferece um indicativo do potencial transformador desses medicamentos sobre o consumo. Segundo levantamento da Worldpanel by Numerator realizado com mais de 11.500 lares, a participação de domicílios com usuários de GLP-1 quase triplicou em dois anos, passando de 2,3% em 2024 para 6,3% em 2026. Atualmente, cerca de 1,9 milhão de britânicos utilizam esses tratamentos, sendo que 68% têm como principal objetivo a perda de peso.

O estudo mostra que a adoção dos medicamentos altera diretamente a relação dos consumidores com a alimentação. Mais da metade dos usuários (54%) afirma sentir menos desejo por comida e menor “ruído alimentar”, enquanto 75% relatam reduzir o consumo de chocolates e 72% diminuem a ingestão de snacks e salgadinhos.

Como consequência, os lares com usuários de GLP-1 gastaram £ 780 milhões a menos em supermercados durante o período analisado e compraram 299 milhões de unidades a menos do que os demais consumidores. Em média, os gastos anuais dessas famílias foram £ 418 inferiores aos dos lares sem usuários dos medicamentos.

Leia também: Canetas emagrecedoras chegam a R$ 4.006 nas farmácias brasileiras

Os resultados reforçam uma tendência que pode ganhar escala no Brasil à medida que os tratamentos se tornam mais acessíveis. A redução do apetite e a busca por escolhas alimentares mais equilibradas podem pressionar categorias tradicionalmente associadas à indulgência, como chocolates, snacks, refrigerantes e produtos ricos em açúcar e gordura.

Ao mesmo tempo, cresce a oportunidade para categorias alinhadas ao bem-estar, à saudabilidade e à nutrição funcional. Produtos ricos em proteína, alimentos com maior densidade nutricional, porções reduzidas e soluções voltadas à saciedade tendem a ganhar relevância na cesta de compras. A transformação também pode impactar o setor de alimentação fora do lar. No Reino Unido, 40% dos usuários afirmam desejar porções menores em restaurantes, enquanto 26% gostariam de encontrar opções específicas para usuários de GLP-1 nos cardápios.

Oportunidade para novas categorias

Embora o impacto mais visível esteja na redução do consumo de alimentos e bebidas, o estudo britânico mostra que a popularização dos medicamentos também cria oportunidades para novas categorias.

Entre os usuários de GLP-1, os gastos com enxaguantes bucais cresceram 20 pontos percentuais acima do observado entre não usuários, enquanto as compras de gomas de mascar registraram aumento de 24 pontos percentuais. O movimento está associado à chamada “boca de Ozempic”, efeito colateral caracterizado por ressecamento bucal e alterações no hálito.

Os dados demonstram que os efeitos da popularização dos medicamentos para emagrecimento vão além da alimentação e podem gerar impactos indiretos em diversos segmentos, incluindo higiene pessoal, saúde, bem-estar e cuidados preventivos.

Se hoje os GLP-1 ainda representam um fenômeno relativamente restrito no Brasil, os indicadores de conhecimento, interesse e preocupação com o peso sugerem que seu impacto pode se ampliar rapidamente nos próximos anos. A experiência do Reino Unido mostra que essa transformação vai muito além da saúde: tem potencial para redefinir hábitos de consumo, remodelar categorias e criar novos espaços de crescimento para a indústria e o varejo.

Metodologia

Os dados de 2025 e 2026 da América Latina fazem parte do estudo The Health Effect, realizado pela Worldpanel by Numerator, com mais de 15 mil entrevistas em nove mercados da região: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, México, Peru e países da América Central.

Já o levantamento realizado no Reino Unido analisou mais de 11.500 lares e investigou os impactos dos medicamentos para perda de peso sobre os hábitos alimentares, os gastos com supermercados e o comportamento de compra dos consumidores.

Foto de Revista da Farmácia

Revista da Farmácia

Por meio da Revista da Farmácia, empresários e profissionais se mantêm informados sobre as mais eficientes técnicas de planejamento, gestão, vendas, boas práticas farmacêuticas, entre outros temas.
Compartilhe
Publicidade

Receba as principais notícias direto no seu celular

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Publicidade

Veja também

Iniciativa de logística reversa recebeu mais de 31 toneladas de resíduos em 2025 e já alcançou mais de 11 toneladas em 2026.
Pesquisa mostra que as apostas online retiraram R$ 103 bilhões do varejo brasileiro em 2024 e revela que os apostadores são, em sua maioria, jovens e economicamente ativos.
Iniciativas de logística reversa no setor farmacêutico mostram que é possível reverter esse cenário, indo além do cumprimento legal.
Pesquisa da InfoPrice mapeou mais de 6,2 milhões de capturas de preço em mais de 13 mil pontos de venda em todo o país.
Rede farmacêutica implementa solução inteligente de controle de ponto e gestão de jornadas, com adequação à NR-1.
CEO da Carpediem RH explica como processos de integração mais humanos fortalecem a cultura organizacional e reduzem o turnover.
Não existem mais matérias para exibir.
Publicidade
Utilizamos cookies para garantir que você tenha a melhor experiência em nosso site. Se você continuar a usar este site, vamos assumir que você está feliz com isso.